quinta-feira, 9 de outubro de 2014

EUA: Guerra ao ISIL é cortina de fumaça para guerra contra Síria e Irã



A chamada “ameaça” do ISIL [ing. para "Estado Islâmico no Iraque e Levante"], ou Estado Islâmico (EI) é cortina de fumaça. A força doISIL foi deliberadamente inflada para conquistar apoio público para o Pentágono e justificar o bombardeio ilegal contra a Síria. Está também sendo usada para justificar a mobilização do que a cada dia mais claramente se vê que é montagem de ataque militar de grande escala liderado pelos EUA no Oriente Médio. O poder de fato e contingentes militares que estão sendo mobilizados excedem em muito o que seria necessário para combater simplesmente os esquadrões da morte do ISIL.
26/9/2014, Mahdi Darius NAZEMROAYA, Strategic Culture Foundation (Фонд Стратегической Культуры)
Por mais que os EUA tentem convencer seus cidadãos e o mundo de que não haverá tropas em solo, é muito improvável que assim seja. É muito improvável, em primeiro lugar, porque é indispensável que haja coturnos em solo para monitorar e selecionar alvos. Além do mais, Washington vê a campanha contra os combatentes do ISIL como guerra que durará anos. É puro duplifalar. O que está sendo imposto à opinião pública norte-americana e mundial é deslocamento militar permanente; no caso do Iraque é redeslocamento para lugar que os EUA já invadiram e ocuparam em 2003. A força militar que está sendo mobilizada nesse caso pode, em todos os casos, ser convertida em forças de assalto gigante contra Síria, Irã e Líbano.
Diálogo de segurança EUA-Síria e EUA-Irã?
Antes do início dos bombardeios dos EUA na Síria, circularam boatos não confirmados de que Washington teria iniciado um diálogo com Damasco, através de canais russos e iraquianos, para discutir coordenação militar e a campanha do Pentágono de bombardeio em território sírio. Ideia absolutamente impensável e completamente improvável. Agentes de confusão operavam em tempo integral para tentar dar qualquer legitimidade ao bombardeio contra a República Árabe Síria.
As ‘notícias’ de cooperação EUA-Síria com intermediação de russos e iraquianos são parte de uma série sinistra de desinformação e contrainformação. Antes de surgirem as ‘notícias’ sobre cooperação entre EUA e Síria, circularam ‘notícias’ sobre cooperação EUA-Irã no Iraque.
Mais cedo, Washington e a mídia norte-americana haviam tentado dar a impressão de que haveria algum acordo para cooperação militar entre os EUA e Teerã, para combater contra o ISIL e cooperarem dentro do Iraque. As ‘notícias’ foram amplamente refutadas nos termos mais incisivos por vários membros do establishment político iraniano e também por comandantes iranianos de alta patente, como simples campanha de desinformação.
Depois que os iranianos indicaram claramente que as declarações de Washington não passavam de ficção, os EUA começaram a dizer que não seria adequado para o Irã unir-se à coalizão anti-ISIL. O Irã retrucou. Washington estava outra vez distorcendo os fatos; a verdade é que funcionários dos EUA várias vezes pediram que Teerã se integrasse à coalizão anti-ISIL.
Ainda antes de deixar o hospital depois de passar por uma cirurgia na próstata, o Aiatolá Ali Khamenei, o mais alto governante do Irã, disse à televisão iraniana, dia 9/9/2014, que os EUA haviam solicitado em três diferentes ocasiões, que Teerã cooperasse com Washington. Explicou que o embaixador dos EUA no Iraque fizera chegar mensagem ao embaixador do Irã no Iraque, solicitando que o Irã se unisse aos EUA naquele momento. Depois – palavras do Aiatolá Khamenei – “o mesmo [John Kerry] – que havia dito frente às câmeras e aos olhos de todo o mundo, que os EUA não queriam a cooperação do Irã – pediram através do Dr. Zarif que o Irã cooperasse com os EUA nessa questão. O Dr. Zarif negou-se a atender o pedido.” E o pedido foi repetido pela vez pela subsecretária norte-americana Wendy Sherman, ao vice-ministro de Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi.
Khamenei também disse que já descartara categórica e absolutamente qualquer cooperação com Washington nessa questão. “Absolutamente não cooperaremos com os EUA, especialmente porque as mãos dos EUA estão sujas” – repetiu o Aiatolá publicamente, ao explicar que não havia qualquer dúvida de que Washington tem as intenções mais perversas no Iraque e na Síria.
Como a Rússia, o Irã já apoia a Síria e o Iraque contra o ISIL. Também como Moscou, Teerã luta contra os terroristas, mas não se integrará a coalizão anti-ISIL de Washington.

Nova(s) invasão(ões) e golpe(s) para Mudança de Regime no em torno do óleogasoduto?
Como se disse dia 20/6/2014, aos olhos de Washington era indispensável remover o governo federal de Nouri Al-Malaki em Bagdá, porque se recusava a unir-se ao cerco contra os sírios comandando pelos EUA; porque se mantinha aliado ao Irã; porque continuava a vender petróleo aos chineses; e a comprar armas da Federação Russa. A decisão do Iraque de Al-Maliki de integrar-se ao óleogasoduto Irã-Iraque-Síria também criava dificuldades contra os objetivos dos EUA e aliados, de (i) controlarem todo o fluxo de energia no Oriente Médio; e (ii) impedir a integração da Eurásia. [1]
O governo de Al-Maliki cometeu também dois outros pecados capitais em Bagdá, pela avaliação dos EUA. Mas essas ofensas, para serem bem compreendidas, têm de ser postas em contexto geopolítico.
Ninguém esqueceu a frase de propaganda criada no governo de Bush Filho depois do 11/9 e no início de suas guerras seriais: “Qualquer um vai para Bagdá; homem que é homem vai para Teerã”. O xis da questão dessa frase belicista, construída como slogan de propaganda, é que Bagdá e Damasco já então eram vistas pelo Pentágono como rotas possíveis que levariam a Teerã. [2]
Como no caso da Síria, os pecados mortais de Al-Maliki também estavam relacionados a impedir o caminho dos EUA até Teerã. Primeiro, o governo do Iraque expulsou o Pentágono do Iraque no final de 2011, com o que removeu as tropas norte-americanas plantadas exatamente na fronteira oeste do Irã. Segundo, o governo federal iraquiano trabalhava para expulsar do Iraque militantes iranianos que se opõem ao governo iraniano e para fechar o Camp Ashraf, que sempre poderia ser usado em guerra ou em operações para mudança de regime contra o Irã.
Ashraf serviu como base para a ala militar dos Mujahidin-e-Khalq  (MEK/MOK/MKO) com base no Iraque. O grupo MEK é organização de iranianos antigoverno, que trabalha a favor do golpe para mudança de regime em Teerã. Já declarou apoio aos ataques liderados pelos EUA contra Irã e Síria.
Embora oficialmente o governo dos EUA classifique os MEK como organização terrorista, Washington já começara a aprofundar os contatos com os MEK quando norte-americanos e britânicos invadiram o Iraque. Ironicamente (e mal intencionados) EUA e Grã-Bretanha usaram o apoio aos MEK para rotular o Iraque como estado patrocinador de terroristas (?!) e, também, para justificar a invasão anglo-norte-americana ao Iraque. Desde essa época, os EUA ‘alimentam’ e mantêm os terroristas do MEK.
Desde 2003, os EUA financiam os MEK. Washington lhes dá proteção, porque quer conservá-los como instrumento a ser usado contra Teerã, ou para manter a opção de, algum dia, instalar o MEK no poder em Teerã, como parte de um golpe para mudança de regime contra o Irã. O MEK já foi, literalmente, incorporado na caixa de ferramentas do Pentágono e da CIA contra Teerã. Mesmo quando os EUA transferiram o controle do Camp Ashraf para o governo de Bagdá, o Pentágono manteve forças suas entre os MEK.
Eventualmente, as forças do MEK seriam, na maioria, realocadas em 2012 para a antiga base dos EUA conhecida como Acampamento Liberty. Esse Acampamento Liberty é hoje mais conhecido por um nome árabe, Acampamento Hurriya.
Scott Peterson, diretor da sucursal de Istanbul do Christian Science Monitor, explica como funcionários dos EUA começaram a realmente apoiar os MEK no início da “Primavera Árabe” de 2011. É projeto também ligado aos sonhos de Washington, de golpe para mudança de regime. Peterson escreveu que funcionários do governo dos EUA “raramente mencionam o passado violentamente anti-EUA dos MEK, e falam do grupo não como terroristas, mas como combatentes da liberdade com “valores iguais aos nossos”, como ‘democratas à espera’ de poderem servir como uma vanguarda para mudança de regime no Irã.” [3]
Washington não abandonou os sonhos de golpe para mudança de regime em Teerã. Seria coincidência que esteja aumentando o apoio que EUA e União Europeia dão hoje aos MEK, sobretudo quando a ameaça do ISIL dentro do Iraque começa a ser comentada e noticiada publicamente?
600 deputados e políticos de quase todos os países da OTAN foram levados para participar de uma grande reunião dos MEK dia 27/6/2014, no nordeste da capital francesa, no subúrbio de Villepinte, que convocou para o golpe de mudança de regime no Irã. Os tipos mais conhecidos pela dedicação com que trabalham pró mais e mais guerras no mundo (o ex-senador dos EUA Joseph Lieberman; o porta-voz e apologista de Israel Alan Dershowhitz; ex-funcionário do governo de Bush Filho e ‘especialista’ contratado da Fox News John Bolton; o ex-prefeito de New York Rudy Giuliani; o ex-ministro francês e chefe da Missão Provisória da ONU para governo do Kosovo (UNIMIK) Bernard Kouchner, todos esses se reuniram com o MEK para promover o golpe para mudança de regime no Irã, e, claro, mais guerra.
Segundo o MEK, mais de 80 mil pessoas compareceram ao comício para promover a mudança de regime no Irã. Lá estavam também militantes da oposição no Iraque e Síria; todos, a pedir ‘mudança de regime’ também no Irã.
A ironia do ‘evento’ é que o dinheiro foi fornecido, praticamente todo, pelos EUA, com alguma contribuição dos aliados. Os gastos foram, sobretudo, para as iniciativas de lobby desse MEK no Congresso dos EUA e no Departamento de Estado, o que, de fato, não passa de ‘reciclagem’ de dinheiro. Gente como Ruddy Giuliani – provavelmente um dos mais odiados prefeitos da história da cidade de New York, até que usou a favor da própria imagem os eventos trágicos do 11/9/2001 – trabalham hoje, de fato, como lobbyistas para o MEK. “Muitos desses ex-altos funcionários do governo dos EUA – que representam todo o pleno espectro político – têm recebido dezenas de milhares de dólares só para falar bem do MEK“, segundo o Christian Science Monitor. [4]
Giuliani vive a discursar em eventos pró MEK pelo menos desde 2010. Em 2011, falou num comício do MEK que promovia o golpe para mudança de regime em Teerã e Damasco. “E se fizéssemos, depois de uma Primavera Árabe, um Verão Persa?”, perguntou Giuliani, retórico. [5] E a sentença seguinte de Giuliani, na mesma ocasião, nada esconde sobre o que é, de fato, a iniciativa dos EUA de apoiar o MEK: “Precisamos de mudança de regime no Irã, ainda mais do que no Egito ou na Líbia, e tanto quanto na Síria.” [6]
Joseph Lieberman, amigo e parceiro na propaganda e promoção de guerras e mais guerras do senador John McCain não pôde viajar até o subúrbio parisiense em Seine-Saint-Denis, mas falou por vídeo, na reunião para mudança de regime. O Deputado Edward Royce, presidente da Comissão de Assuntos Externos da Câmara de Deputados dos EUA, também falou por videoconferência a favor de mudança de regime no Irã. E o mesmo fizeram os senadores Carl Levin e Robert Menendez.
Estavam presentes grandes delegações de EUA, França, Espanha, Canadá e Albânia. Além dos já mencionados, outros norte-americanos notáveis também participaram do comício de 27/6/2014, além de vários franceses e espanhóis igualmente notáveis, e de muito notáveis euro-atlanticistas.
Nomes em: (1) Newt Gingrich; (2) John Dennis Hastert; (3) George William Casey; (4) Hugh Shelton; (5) James Conway; (6) Louis Freeh; (7) Lloyd Poe; (8) Daniel Davis; (9) Loretta Sánchez; (10) Michael B. Mukasey; (11) Howard Dean; (12) William Richardson; (13) Robert Torricelli; (14) Francis Townsend; (15) Linda Chavez; (16) Robert Joseph; (17) Philip Crowley; (18) David Phillips; (19) Marc Ginsberg; (20) Michèle Alliot-Marie; (21) Rama Yade; (22) Gilbert Mitterrand; (23) Martin Vallton; (24) Pedro Agramunt Font de Mora; (25) Jordi Xucla; (26) Alejo Vidal-Quadras; (27) José Luis Rodriguez Zapatero; (28) Sonsoles Espinosa Díaz); (29) Pandli Majko; (30) Kim Campbell; (31) Geir Haarde; (32) Ingrid Betancourt; (33) Alexander Carile; (34) Giulio Maria Terzi; e (35) Adrianus Melkert.
 E não se falou só de golpe para mudança de regime; fala-se também da crise nas regiões de fronteira no Iraque e na Síria. Fox News deu cobertura especial àquele evento do MEK. Em julho, a liderança do MEK havia condenado o apoio do Irã ao governo federal do Iraque em sua luta contra o ISIL; depois que os EUA começaram a falar de combater ISIL, calaram-se. Antes do comício para promoção do golpe de mudança de regime, a líder dos MEK, Maryam Rajavi - que osMEK indicaram presidenta do Irã desde 1993 – até se encontrou com o líder-fantoche do Conselho Nacional Sírio Ahmed Jarba em Paris, dia 23/5/2014, para discutirem cooperação.

Golpe para mudança de regime em Damasco mediante ‘extensão-distorção’ da ‘missão’ na Síria

A campanha de bombardeio que os EUA iniciaram na Síria é ilegal e viola a Carta da ONU. Por isso o Pentágono tomou a providência de ‘declarar’ que a campanha de bombardeio liderada pelos EUA seria necessária, por causa de ameaça de um ataque “iminente” que estaria sendo planejado contra o território dos EUA. Isso foi feito para dar alguma cobertura pseudo legal ao bombardeio contra território sírio, servindo-se do argumento, distorcido, de que o Artigo 51 da Carta da ONU permite que estado membro ataque legalmente outro estado, se houver ameaça de ataque iminente, por aquele país, contra membro da ONU.
Barack Obama e o governo dos EUA fizeram o possível para confundir encobrir a realidade mediante alguns passos tomados para fazer crer que seria legítimo violar a lei internacional e bombardear a Síria sem autorização de Damasco. A embaixadora dos EUA Samantha Powers deu conhecimento ao representante permanente da Síria na ONU que os EUA atacariam o Governato de Al-Raqqa, informando Bashar Al-Jaafari mediante uma notificação unilateral, que absolutamente não significa que os EUA tivessem obtido o consentimento legal da Síria.
Os ataques norte-americanos contra a Síria não têm tampouco o apoio do Conselho de Segurança da ONU. Mas o governo dos EUA tentou fazer-crer que a reunião do Conselho de Segurança da ONU do dia 19/9/2014, que foi presidida por John Kerry seria sinal de que o Conselho de Segurança da ONU e a comunidade internacional estariam apoiando a campanha de bombardeamento contra a Síria.
Não foi tampouco por coincidência que, exatamente quando os EUA montavam sua coalizão multinacional para dar combate ao ISIL e àquele pseudo Califato, John Kerry mencione, convenientemente, que a Síria teria violado a Convenção das Armas Químicas (CAQ) [orig. Chemical Weapons Convention (CWC)]. Ao mesmo tempo em que admitia que a Síria não usou qualquer material proibido pela CAQ, Kerry, muito incoerentemente disse aos deputados, dia 18/9/2014, que Damasco teria desrespeitado a CAQ.
Em resumo, Washington já está dizendo absolutamente qualquer coisa, não importa o quando seja absurdo ou inverossímil, para dar início ao golpe para mudança de regime em Damasco. Se o já exposto até aqui não bastar para mostrar isso, o fato de que os EUA usarão território da Arábia Saudita para treinar ainda mais forças antigoverno sírio com certeza o mostra. [7]
Os EUA têm em vista uma campanha de bombardeio de longa duração, que também ameaça o Líbano e o Irã. Segundo o Aiatolá Ali Khamenei, os EUA planejam bombardear Iraque e Síria servindo-se do ISIL como cortina de fumaça, seguindo o modelo já usado no Paquistão. Mais corretamente, seguindo o modelo do que os EUA chamavam “AfPak”. Os EUA usaram os efeitos da instabilidade que extravasaram do Afeganistão para o Paquistão, e a expansão dos Talibã, como pretexto para bombardearem o Paquistão. Iraque e Síria também já estão ‘unidos’ numa só zona de conflito, para o qual Ibrahim Al-Marashi criou a neologia “Siriaque” [ing. "Syraq"].
O objetivo mais amplo: impedir a integração da Eurásia
Enquanto os EUA estão ocupados fingindo que combatem os mesmos esquadrões da morte e terroristas que criaram e armaram, os chineses e seu parceiros trabalhavam muito para integrar a Eurásia. Enquanto os EUA faziam sua Guerra Global ao Terror (GGaT), a Eurásia assistia à reconstrução da Rota da Seda. Isso, afinal, é a história de fundo e o verdadeiro motivo da insistência de Washington, que não para de manter guerras em cursos e criar mais e mais novas guerras e remobilizar todo o Oriente Médio. É a razão também pela qual os EUA só fazem empurrar a Ucrânia para um confronto com a Rússia; e é também a razão para as sanções da União Europeia contra a Federação Russa.
Os EUA tentam impedir a re-emergência da Rota da Seda e a expansão dessa rede comercial. Ao mesmo tempo em que Kerry só faz tentar apavorar as pessoas com ameaças do ISIL e suas atrocidades, os chineses só fizeram ampliar seus mapas com negócios e mais negócios por toda a Ásia e o Oceano Índico. É parte da marcha para o oeste, do dragão chinês.
Paralelamente às viagens de Kerry, o presidente da China Xi Jinping visitou o Sri Lanka e foi às Maldivas. Sri Lanka já é parte do projeto chinês da Rota Marítima da Seda. As Maldivas são mais recentemente chegadas ao mesmo projeto; construíram-se acordos para incluir a ilha-nação também na rede e na infraestrutura da Rota Marítima da Seda que a China dedica-se a construir para expandir o comércio marítimo entre o Leste da Ásia, o Oriente Médio, a África e a Europa. Também não é coincidência que os dois destroieres chineses ancorados no porto iraniano de Bandar Abbas no Golfo Persa estejam fazendo manobras conjuntas com naves de guerra iranianas no Golfo Persa.
Paralela à rede leste-oeste, uma rede de comércio e transporte norte-sul está sendo também desenvolvida. O presidente Hassan Rouhani do Irã esteve no Cazaquistão recentemente, onde, com seu contraparte cazaque, Nursultan Nazarbayev, confirmaram que haverá desdobramentos comerciais importantes. Aguarda-se também a conclusão da estrada de ferro Cazaquistão-Turcomenistão-Irã, que criará uma rota de trânsito norte sul. E os dois presidentes também discutiram a cooperação entre Teerã e a União Eurasiana. Do lado ocidental do Mar Cáspio, planeja-se também um corredor paralelo norte-sul, da Rússia ao Irã atravessando a República do Azerbaijão.
As sanções anti-Rússia já começam a causar mal-estar na União Europeia, quem mais perde no processo. A Rússia já mostrou que tem opções. Moscou já começou a construir o mega gasoduto para gás natural Yakutia-Khabarovsk-Vladivostok (também chamado gasoduto Poder da Sibéria) para entregar gás à China. E a África do Sul, parceira da Rússia nos grupo BRICS, assinou acordo histórico de energia nuclear com a empresa russa Rosatom.
A importância da Rússia no cenário mundial é bem clara e vem aumentando no Oriente Médio e na América Latina. Até mesmo no Afeganistão, feudo da OTAN, a influência russa está crescendo. O governo russo compilou recentemente uma lista de mais de 100 antigos projetos soviéticos de construção, que lhe parecem importantes para serem recuperados.
Alternativa às sanções de EUA e União Europeia começa a emergir na Eurásia. Além do acordo para troca de petróleo-por-produtos que Teerã e Moscou assinaram, o ministro de Energia da Rússia Alexander Novak anunciou que Irã e Rússia já têm novos acordos no total de 70 bilhões de euros. Em breve se verá que as sanções só isolarão os EUA e a União Europeia. Os iranianos também anunciaram que estão trabalhando com seus parceiros chineses e russos para superar o regime de sanções de EUA e União Europeia.
Os EUA estão tendo de se recolher. Não podem ‘pivotear-se’ para o Pacífico Asiático, enquanto não resolverem as coisas no Oriente Médio e no leste da Europa, onde estão em guerra contra Rússia, Irã, Síria e seus aliados. Por isso Washington dedica-se em tempo integral a fraturar, dividir, intrigar, chantagear e corromper, no esforço para co-optar. Assim, afinal, se pode entender que os EUA não estão absolutamente preocupados em dar combate ao ISIL, que sempre serviu aos interesses dos EUA no Oriente Médio. Os EUA só têm duas principais preocupações: tentar impedir que seu império desmonte-se aos pedaços e tentar impedir a integração eurasiana.
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Mahdi Darius Nazemroaya é Investigador Associado do Centro de Investigação da Globalização/Centre for Research on Globalization (CRG) especializado em assuntos geopolíticos e estratégicos.
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NOTAS
[1] Mahdi Darius Nazemroaya, “America pursuing regime change in Iraq again”, 20/6/2014.
[2] Mahdi Darius Nazemroaya, “The Síria Endgame: Strategic Stage in the Pentagon’s Covert War on Iran”, Global Research, 7/1/2013.
[3] Scott Peterson, “Iranian group’s big-money push to get off US terrorist list”, Christian Science Monitor, 8/8/2011.
[4] Ibid.
[5] Ibid.
[6] Scott Peterson, “Iranian group’s big-money push to get off US terrorist list”, Christian Science Monitor, 8/8/2011.
[7] Matt Spetalnick, Jeff Mason e Julia Edwards, “Saudi Arabia agrees to host training of moderate Syria rebels”, Caren Bohan, Grant McCool, and Eric Walsh (eds.), Reuters, 10/9/2014.

AKP , Estado Islâmico, EUA... Ficaram todos malucos?


Em 23 de setembro por Kemal Okuyan (PC Turco), para o soL Portal de Notícias
Vem-nos sendo dito que o processo de confrontação aberta que ocorre no Oriente Médio está fora de controle, que as ações dos principais atores envolvidos perderam qualquer racionalidade e que poderão ocorrer alianças ou confrontos inesperados nos próximos tempos. E em todos os casos é o Estado Islâmico (ISIS: Islamic State) que está à frente no debate. Vem-nos sendo dito que a existência dessa organização sanguinária é o resultado da falta de perspectiva e de planejamento, que é também o resultado de uma estratégia imediatista do imperialismo e de fanatismo religioso. Vem sendo mencionado que o ator que foi posto no palco para desempenhar outro papel (o ISIS) começou a improvisar por conta própria de maneira tão acentuada que o diretor, o roteirista e os designers de palco e vestimentas ficaram pasmos com sua perda de controle.
Quando o assunto em questão são as políticas dos EUA para a região, encontramos muito frequentemente o conceito de “caos organizado”. Obviamente que não devemos entender isso como o planejamento e a criação do caos em cada um dos mínimos detalhes. Numa região onde a energia destrutiva pode continuar recriando a si mesma, providenciando insumos que acionam a liberação dessa energia, os EUA estão tentando fazer com que as coisas cheguem num estágio diferenciado de controle, num amplo domínio político no qual diferentes elementos começam a mover-se em diferentes direções e onde estes confrontam uns aos outros abertamente. Das relações políticas francas e declaradas às relações dissimuladas, o estabelecimento dessas entre todos os elementos vem se expandindo, abrindo continuamente novos canais de intervenção...
Em resumo, no atual estágio não há nenhuma razão para declarar que certos atores estão fora de controle ou que não são administráveis. Afinal, será que esses atores já foram administrados segundo seu sentido implícito? Estamos constantemente falando sobre grupos islâmicos e tentando imaginar quando que a Al-Qaeda, Talibã, Al-Nusrah e agora o Estado Islâmico foram aliados dos EUA e quando passaram a ser inimigos. Vamos olhar por outra perspectiva. Saddam Hussein. que foi deposto pela ocupação militar estadunidense sobre o Iraque, não havia ele mesmo sido conduzido pelos EUA a entrar em guerra contra o Irã? Mais tarde, ele não recebeu o aval de Washington para ocupar o Kuwait? E ainda assim não acabou tendo seu nome adicionado a lista de inimigos dos EUA logo depois?
Estivera Saddam fora de controle ou estava o imperialismo estadunidense seguindo uma “estratégia” dinâmica que amadureceu em menos tempo que qualquer um poderia ter conseguido para a situação política dessa região? Essa estratégia que constantemente se choca contra um muro pode ser vista como um carrinho de bate-bate que muda de direção a cada vez que acerta um obstáculo. Dessa maneira, os EUA conseguem controlar a situação até que alguém lhe tome o carrinho de assalto ou lance um carrinho mais potente para brincar na região; região esta que mais parece um campo minado...
O Estado islâmico está fora de controle, a Turquia vem sendo governada por maníacos e os EUA estão em choque... Será realmente possível explicar tudo isso que está acontecendo nesses termos?
Se prestarmos atenção torna-se claro que o ISIS está se comportando de maneira previsível e lógica. Querem mesmo que acreditemos que seus líderes são psicopatas? Ok, talvez sejam em parte, mas não são tão mais do que os que estão em Washington ou Ankara! Dessa forma, o que determina o comportamento do Estado Islâmico?
  1. Fanatismo religioso... Mais presente em suas bases que em suas lideranças.
  2. Dinheiro... Em grandes quantidades.
  3. O desejo de governar e dominar... Numa versão que cresce a cada dia que passa.
  4. Influência externa... Quanto a isso, absolutamente nenhuma dúvida!
A pergunta que deveríamos estar nos fazendo é se os EUA foram pegos despreparados pelas últimas ações do ISIS. Deixe-me apresentar a resposta... A reação do governo dos EUA à tomada da cidade de Mosul pelo Estado Islâmico é parecida com a reação de Davutoglu [1] ao ataque a Reyhanli [2]. O governo dos EUA está extremamente satisfeito com a agenda do Estado Islâmico. Com o passar do tempo podem ocorrer consequências indesejadas, mas isso é algo que eles irão relevar sobre a atuação política do ISIS. Essa não foi sempre a questão?
Outra pergunta emerge exatamente sobre esse tema. O que a Turquia está planejando fazer? Estará o seu governo desempenhando o novo papel que lhe foi atribuído como parte da redistribuição de funções entre os demais atores promovida pelos EUA ou estará a equipe de Erdogan-Davutoglu seguindo um caminho de insanidade que os levará a um lado contrastante com os EUA? Nenhuma das duas. Para ser mais preciso a pergunta que devemos fazer não é essa.
A Turquia não atua na região isoladamente a partir da incorporação mecânica de uma estratégia dos EUA. Como uma condição importante em seus processos decisórios, ela também deixa algum espaço para suas próprias prioridades políticas e ideológicas. Essa decisão nem sempre precisa estar alinhada com as estratégias dinâmicas dos EUA. Isso é impossível em todo o caso.
Vamos nos aprofundar na questão do Estado Islâmico um pouco mais. Entre os países que se juntaram à coalizão liderada pelos EUA contra o Estado Islâmico não estão ainda alguns que seguem financiando a mesma organização? Sim, há. No caso, a Arábia Saudita, o Qatar e a Jordânia iriam interromper os repasses de dinheiro e armas para o ISIS e não demoraria ao todo mais de uma semana para que toda a negociata estivesse interrompida. Entretanto, além de algumas questões simbólicas, nada de mais substancial foi feito nesse quesito. Em outras palavras, a coalizão reacionária continua financiando a organização a qual eles haviam declarado como “inimiga”. Quem acreditará em vocês depois disso? Mas eles querem que acreditemos que o ISIS está fora de controle. Vamos definir isso então: foi desejável que o ISIS estivesse fora de controle!
O governo do AKP [3] anuncia publicamente, justamente sobre esse assunto, seu compromisso com o Estado Islâmico. Ele finge estar relutante a juntar-se à coalizão, ele não pode declarar o ISIS como “terrorista” e de tempos em tempos ele acaba confrontando o governo dos EUA. A existência de laços militares, econômicos, políticos e ideológicos entre a Turquia e o Estado Islâmico é de conhecimento público. Não é relevante debater se esses laços existem, mas sim em qual escala estão e quão profundo eles são. Isso é o que importa para o debate.
Como que Erdogan [4] conseguiu tanta liberdade de movimentação? Por que, se os EUA estão forjando um “sistema” alheio a este caos eles precisarão de um supervisor que possa falar a mesma língua dos estados tribais islâmicos. O AKP também sabe que esse ator diferenciado não pode ser ninguém mais que eles mesmos. Não há nenhuma outra força mais apropriada para cumprir este papel. Um governo secularista na Turquia desejando colaborar com os EUA pode desempenhar também papéis bastante variados, mas ele não pode falar a linguagem ideológica reacionária que só o AKP pode fazer. Para que o AKP permaneça no poder, ele deve responsabilizar-se pelo Estado Islâmico e outros grupos. Os EUA compreendem isto. E para a perpetuação das justificativas para a intervenção estadunidense na região o ISIS precisa estar apoiado por alguém, precisa estar fortalecido, ao menos por algum tempo. Os EUA compreendem e fecham os olhos para a situação.
E enquanto tudo isso acontece, o AKP está cavando a própria cova. Com o anseio de ser a força política hegemônica de uma União do Oriente Médio (ou seja, uma união de estados tribais), como o novo Império Otomano, ele está se metendo em aventuras aquém de suas capacidades. Sem levar em conta a possibilidade de que um dia seus mestres da “estratégia dinâmica” poderão virar-lhe as costas e dizer “você é meu inimigo agora”...
[1] Ahmet Davutoglu é o atual primeiro ministro da Turquia. Protagonizou-se quando ministro das Relações Exteriores pela política de expansão da influência turca nos territórios do antigo Império Otomano, incluindo relações diplomáticas com Israel. É o líder do partido conservador AKP.
[2] Em Reyhanli, um vilarejo turco na fronteira com a Síria, mais de cinquenta pessoas foram mortas durante um ataque à bomba no ano passado. Quando Davutogslu foi questionado sobre os assassinatos, ele respondeu com um pequeno sorriso no rosto.
[3] Partido da Justiça e do Desenvolvimento (AKP) é um partido conservador que está no poder na Turquia desde 2011.
[4] Recep Tayyip Erdogan é o atual presidente da Turquia em exercício desde 2014. Ele pertence ao partido conservador AKP.
Tradução: Partido Comunista Brasileiro (PCB)

terça-feira, 30 de setembro de 2014

À sombra da geopolítica dos EUA, ou Como sempre, é a “Grande Israel”


"Desde o início da “Primavera Árabe”, os EUA vêm se movimentando na direção de uma reestruturação geopolítica da região, a qual, é claro, também levantou a discussão sobre o destino de Israel. Desde então, a questão permanece na agenda. E não importa a forma que assuma, o tom não muda: Israel é invariavelmente apresentada como a vítima. 

Assim, na primavera de 2011, no auge da guerra contra a Líbia, quando a Autoridade Palestina levantou a questão de tornar-se membro da ONU, a imprensa-empresa ocidental rapidamente pôs-se a denunciar a traição, por Washington, que estaria “entregando” o Estado Judeu aos islamistas. Hoje, quando o absurdo dessa ideia já é óbvio para todos, a ênfase passou para a ameaça mortal que o Irã representaria para Israel, ênfase que, pelo que se vê, cresce alinhada à deterioração da situação na Síria. 

Nesse processo, a questão mais importante está sendo ocultada ou, simplesmente, foi varrida: o agudo interesse que Israel tem na desestabilização dos países árabe-muçulmanos que a cercam; e em manter e expandir a guerra na Síria. 

O rabino Avraam Shmulevich, um dos criadores da doutrina do “hipersionismo”, influente na elite israelense, falou abertamente sobre as razões desse interesse, em entrevista, em 2011. É interessante: ali, ele via a “Primavera Árabe” como uma bênção para Israel."


 

Há trinta anos, os estrategistas dos EUA introduziram a ideia do “Grande Oriente Médio”, ou “Oriente Médio Expandido” [orig. The Greater Middle East], correspondente ao espaço do Maghreb a Bangladesh, e declararam que esse vasto território passava a ser zona de interesse prioritário dos EUA.



Novo Oriente Médio pensado pelos EUA/Israel


Em 2006, o programa de domínio pelos EUA nessa região foi renovado e definido mais concretamente: a então secretária de Estado dos EUA Condoleezza Rice introduziu a expressão “O Novo Oriente Médio”, com destaque para um plano para retraçar as fronteiras no Oriente Médio, da Líbia à Síria, Iraque, Irã e até Afeganistão. A estratégica apareceu referida como “um caos construtivo” (...)


No mesmo ano (2006), um mapa do “Novo Oriente Médio” (ver acima) preparado pelo coronel Ralph Peters foi publicado na revista norte-americana Armed Forces Journal que circulou no governo e em círculos políticos e militares mais amplos, preparando a opinião pública para as mudanças iminentes.
 

Desde o início da “Primavera Árabe”, os EUA vêm se movimentando na direção de uma reestruturação geopolítica da região, a qual, é claro, também levantou a discussão sobre o destino de Israel. Desde então, a questão permanece na agenda. E não importa a forma que assuma, o tom não muda: Israel é invariavelmente apresentada como a vítima.

Assim, na primavera de 2011, no auge da guerra contra a Líbia, quando a Autoridade Palestina levantou a questão de tornar-se membro da ONU, a imprensa-empresa ocidental rapidamente pôs-se a denunciar a traição, por Washington, que estaria “entregando” o Estado Judeu aos islamistas. Hoje, quando o absurdo dessa ideia já é óbvio para todos, a ênfase passou para a ameaça mortal que o Irã representaria para Israel, ênfase que, pelo que se vê, cresce alinhada à deterioração da situação na Síria.

Nesse processo, a questão mais importante está sendo ocultada ou, simplesmente, foi varrida: o agudo interesse que Israel tem na desestabilização dos países árabe-muçulmanos que a cercam; e em manter e expandir a guerra na Síria.


O rabino Avraam Shmulevich, um dos criadores da doutrina do “hipersionismo”, influente na elite israelense, falou abertamente sobre as razões desse interesse, em entrevista, em 2011. É interessante: ali, ele via a “Primavera Árabe” como uma bênção para Israel.

O mundo muçulmano, escreveu Avraam Shmulevich, está mergulhando em um estado de caos, e esse desenvolvimento será positivo para os judeus. O caos é o momento perfeito para assumir o controle de uma situação e pôr em operação o sistema da civilização judaica. Exatamente agora, acontece uma batalha pelo lugar de guia espiritual da humanidade: Roma (o Ocidente) ou Israel. (...) Agora é o momento em que devemos tomar em nossas mãos o controle. (...) Não apenas varrer a elite árabe, mas fazê-la comer na nossa mão. (...) Quem alcance a liberdade deve, ao mesmo tempo, ser orientado sobre como usar essa liberdade. E essa orientação, para toda a humanidade, será escrita por nós. (...) O judaísmo florescerá, do incêndio das revoluções árabes. [negritos da autora].


Sobre os objetivos da política externa de Israel, Shmulevich enfatizou a necessidade de manter “as fronteiras naturais ao logo do Nilo e do Eufrates estabelecidas na Torah”, que deverão então ser seguidas na segunda fase da ofensiva – expandindo a hegemonia de Israel para toda a região do Oriente Médio. Também sobre isso, Shmulevich falou com extrema clareza:

Está começando simultaneamente no Oriente Médio uma cadeia de desintegração e reforma. Assad, que atualmente está afogando em sangue os processos revolucionários na Síria, não conseguirá, contudo, manter-se por mais um, dois anos. A revolução está começando na Jordânia. Até os curdos e o Cáucaso estão emergindo como parte integrante do Oriente Médio (...) [negritos da autora].

Não é difícil ver aí um Iraque, ou um Afeganistão, continuados.

Seria possível classificar Shmulevich como pensador marginal, não fosse o fato de que ele repete os princípios fundamentais do plano estratégico que líderes israelenses traçaram em 1982, conhecido como “Plano Yinon”. O plano visava a garantir a superioridade regional para o governo israelense, mediante a desestabilização e a “balcanização”, ou seja, a desestabilização dos estados árabes adjacentes ou, em outras palavras, o mesmo que se leu, reproduzido, no projeto “Novo Oriente Médio” esboçado por Condoleeza Rice e pelo coronel Ralph Peters.


Grande Israel ou Terra Prometida por Oded Yinon

O plano traça “Uma estratégia para Israel nos anos 1980s”, documento preparado por Oded Yinon, jornalista israelense ligado ao Ministério de Negócios Exteriores. Foi publicado primeiro em hebraico, na revista Kivunim [Rumos], do Departamento de Informação da Organização Sionista Mundial, em fevereiro de 1982. No mesmo ano, a Associação de Universitários Árabe-Norte-Americanos publicou uma tradução do texto, assinada e anotada por Israel Shahak [1]. Em março de 2013, o artigo de Israel Shahak foi publicado na página de Michel Chossudovsky na Internet, Global Research.

Esse documento, que é parte da formação da “Grande Israel”, escreve Chossudovsky na introdução ao artigo, é a pedra de toque de poderosas facções sionistas dentro do atual governo de Netanyahu, do Partido Likud e do establishment militar e de inteligência israelense (...). Vistas no atual contexto, a guerra contra o Iraque, a guerra de 2006 contra o Líbano, a guerra de 2011 contra a Líbia, a atual guerra contra a Síria, para nem falar do processo de “mudança de regime” no Egito, têm de ser compreendidos em relação àquele Plano Sionista para o Oriente Médio” [negritos da autora].

O plano está baseado em dois princípios fundamentais que determinam as condições da sobrevivência de Israel em seu ambiente árabe:

(1) Israel tem de tornar-se potência imperial regional; e
(2) Israel tem de fragmentar toda a área circundante em estados menores, mediante a dissolução de todos os estados árabes existentes. O tamanho desses estados dependerá da composição étnica e religiosa de cada um. Sobretudo: a criação de novos estados baseados na religião será fonte de legitimidade moral para o governo israelense.

Deve-se dizer que a ideia de fragmentar os estados árabes do mundo não é nova. Existe há muito tempo no pensamento estratégico sionista, [2]
mas a matéria de Yinon, como Israel Shahak já destacara em 1982, ofereceu um “plano acurado e detalhado do então governo sionista (de Sharon e Eitan) para o Oriente Médio, baseado na divisão dos territórios em estados pequenos, e na dissolução dos estados árabes existentes”.

Aqui, Shahak chama a atenção para dois pontos:


(1) A ideia de que todos os estados árabes devam ser quebrados, por Israel, em unidades menores, ocorre seguidas vezes no pensamento estratégico dos israelenses. E
(2) A forte conexão com o pensamento dos neoconservadores nos EUA, que inclui a ideia da “defesa do ocidente”, é muito proeminente, mas é puramente retórica, porque o real objetivo do autor do trabalho é construir um império israelense e convertê-lo em potência mundial (“Em outras palavras”, Shahak comenta, “o objetivo de Sharon é enganar os norte-americanos, depois de ter enganado todos os demais”).

O principal ponto do qual Oded Yinin parte é que o mundo está nos estágios iniciais de uma nova época histórica, cuja essência estaria na “visão racionalista, humanista, como pedra basilar sobre a qual se apoiam a vida e as realizações da civilização ocidental desde a Renascença”.

A seguir, Yinon oferece as ideias do “Clube de Roma” sobre a limitação dos recursos do planeta, insuficientes para atender as necessidades econômicas e demográficas da humanidade.

Num mundo no qual há 4 bilhões de seres humanos e recursos econômicos e de energia que não crescem proporcionalmente para atender à demanda da humanidade, não é realista esperar atender todas as demandas da Sociedade Ocidental, i.e. o desejo e a aspiração ao consumo ilimitado. A visão segundo a qual a ética não tem papel determinante na direção que o Homem tome, e que só suas necessidades materiais contam – essa visão está se tornando dominante hoje, quando vemos um mundo do qual quase todos os valores estão desaparecendo. Estamos perdendo a capacidade para avaliar as coisas mais simples, especialmente no que tenha a ver com a simples questão de o que é o Bem e o que é o Mal.

O mundo caminha para uma guerra global por recursos, e isso diz respeito, em primeiro lugar, ao Golfo Pérsico. Avaliando a situação do mundo árabe-muçulmano em relação a isso, o “Plano Yinon” anota:

No longo prazo, esse mundo não conseguirá existir dentro de seu atual quadro nas áreas em torno de nós [de Israel], sem passar por genuínas mudanças revolucionárias. O Mundo Árabe Muçulmano está construído como temporário castelo de cartas erguido por estrangeiros (França e Grã-Bretanha nos séculos 19-20), sem que os planos e desejos dos habitantes tenham sido levados em consideração. Foi arbitrariamente dividido em 19 estados, todos feitos de diferentes combinações de minorias e grupos étnicos que são hostis uns aos outros, de tal modo que cada estado árabe muçulmano hoje enfrenta a destruição étnica e social de dentro para fora, e em alguns já há guerra civil (...).



Mundo Árabe Muçulmano (legendado)


Depois de pintar um quadro misto do mundo muçulmano árabe e não árabe, Yinon conclui:

Esse quadro de minoria nacional étnica que se estende do Marrocos à Índia e da Somália à Turquia aponta para a ausência de estabilidade e uma rápida degeneração em toda a região. Se se soma a esse quadro o quadro econômico, vê-se que toda a região está construída como um castelo de cartas, incapaz de sobreviver aos seus graves problemas.

Nesse ponto, Yinon chega a listar as novas “oportunidades para transformar a situação” que Israel deve aproveitar na década seguinte.

Quanto à Península do Sinai, implica estabelecer controle sobre o Sinai como reserva estratégica, econômica e de energia para o longo prazo. Diz Yinon:

O Egito, no atual quadro político doméstico, já é um cadáver, ainda mais se se considera a crescente divisão entre muçulmanos e cristãos. Assim sendo, o objetivo de Israel nos anos 1980s, no seu front ocidental, é dividir territorialmente o Egito em distintas regiões geográficas [negritos da autora].

Sobre o front oriental de Israel, mais complicado que o front ocidental, Yinon escreve:

A total dissolução do Líbano em cinco províncias serve como precedente para todo o mundo árabe incluindo Egito, Síria, Iraque e a Península Arábica e já está seguindo aquela trilha. A dissolução da Síria e do Iraque depois, em áreas etnicamente ou religiosamente uniformes, como no Líbano, é o primeiro objetivo de Israel no front oriental para o longo prazo, enquanto a dissolução do poder militar desses estados fica como objetivo primário no curto prazo [negritos da autora]. A Síria cairá em partes, segundo sua estrutura étnica e religiosa, dividida em vários estados, como o Líbano de hoje, de modo que haverá um estado xiita alawita no litoral; um estado sunita na área de Aleppo; outro estado sunita em Damasco, hostil ao vizinho do norte; e os drusos criarão seu estado, talvez até em nosso Golan, e com certeza no Hauran e no norte da Jordânia.

A "balcanização" da Síria pensada por Israel (Plano Yinon)



O Iraque, rico em petróleo, por um lado, e internamente fracionado, por outro, é candidato garantido a alvo de Israel. A dissolução do Iraque é até mais importante para nós que a da Síria (...) Todos os tipos de confrontação inter-árabes nos ajudará [ajudará Israel] no curto prazo e encurtará o caminho até o objetivo mais importante de quebrar o Iraque em áreas por religião, como na Síria e no Líbano. No Iraque, é possível uma divisão em províncias por linhas étnicas/religiosas, como a Síria durante os otomanos. Assim, haverá três (ou mais) estados em torno das três maiores cidades: Basra, Bagdá e Mosul; e áreas xiitas no sul separadas do norte sunita e curdo.

Toda a Península Arábica é candidata natural à dissolução, dadas as pressões internas e externas, e é inevitável [negritos da autora], especialmente na Arábia Saudita, independente de que sua economia baseada no petróleo permaneça intacta ou enfraqueça no longo prazo. As rixas e fraturas internas são desenvolvimento claro e natural, à vista da atual estrutura política.

A Jordânia é alvo estratégico imediato no curto prazo, mas não no longo prazo, porque não é real ameaça no longo prazo depois da dissolução, do fim do longo reinado do rei Hussein e da transferência de poder para os palestinos no curto prazo. Não há possibilidade alguma de que a Jordânia continue a existir com a estrutura atual, por longo tempo [negritos da autora], e a política de Israel, seja na paz, seja na guerra, tem de ser dirigida à liquidação da Jordânia do atual regime e à transferência daquele território para a maioria palestina. Mudar o regime a leste do rio também porá fim ao problema dos territórios densamente povoados de árabes a oeste do rio Jordão. (...) Só reinarão coexistência genuína e paz sobre a terra, quando os árabes entenderem que sem governo judeu entre o Jordão e o mar eles jamais terão nem segurança nem existência [negritos da autora]. Só terão nação deles e segurança, na Jordânia.

Na sequência, Yinon lista os objetivos internos estratégicos de Israel e os modos de alcançá-los, enfatizando a necessidade de sérias mudanças no mundo [negritos da autora].

Dispersar a população é assim objetivo doméstico estratégico da mais alta ordem; sem isso, deixaremos de existir em quaisquer fronteiras. Judea, Samaria e a Galileia são nossa única garantia para a existência nacional (...) Alcançar nossos objetivos no front oriental depende, antes, de realizarmos esse objetivo estratégico interno. A transformação da estrutura política e econômica, para permitir que se alcancem esses objetivos estratégicos, é a chave para obter toda a mudança [negritos da autora]. Temos de mudar, de uma economia centralizada na qual o governo está extensamente envolvido, para um mercado aberto e livre e temos de mudar, da dependência atual em que dependemos dos contribuintes norte-americanos para nosso desenvolvimento, para uma infraestrutura econômica genuinamente produtiva. Se não conseguirmos fazer livre e voluntariamente essa mudança, seremos forçados a ela pelos desenvolvimentos mundiais, especialmente nas áreas das finanças, energia e política, e pelo nosso crescente isolamento.

Rápidas mudanças no mundo também trarão mudanças na condição dos judeus em todo o mundo, para os quais Israel se converterá não só no último recurso, mas na única opção existencial.

Avaliando esse plano, podem-se extrair as seguintes conclusões.

Em primeiro lugar, dado que traça objetivos estratégicos de Israel, é plano de longo prazo, particularmente importante hoje. Em segundo lugar, a possibilidade de realizar a estratégia externa aí exposta envolve sérias mudanças, na posição da própria Israel e em escala mundial. E isso é, exatamente, o que começou a acontecer em meados dos anos 1980s.

Com a classe governante global em transição para uma estratégia neoliberal, Israel experimentou mudanças profundas, que resultaram em o país acabar controlado por 18 das famílias mais ricas. O capital israelense foi ativamente investido fora de Israel, e o mercado israelense, por sua vez, revelou-se amplamente aberto ao capital estrangeiro. Resultado dessa ativa “integração” no sistema econômico global, o capital israelense misturou-se de tal modo ao capital transnacional, que a noção de uma “economia nacional de Israel” perdeu completamente qualquer significado. Nessas condições, a transição de Israel para um expansionismo ativo até se tornou possível, embora se tenha manifestado pela infiltração intelectual e econômica, não pelo controle militar ou pela presença de forças. O mais importante é o envolvimento do território em geral, no centro do qual está Israel.

Shmulevich também se referiu a isso, ao apontar que um dos conceitos fundamentais do judaísmo é “ser a força que guia a civilização humana e demarca os padrões para a civilização humana”.

Exemplo dessa união árabe-israelense é a criação do fundo de investimentos Markets Credit Opportunity (EMCO) com 1 bilhão de dólares do grupo bancário suíço Credit Suisse AG e o envolvimento de três dos maiores acionistas do banco – o IDB Group de Israel; o fundo estatal de investimentos do Qatar, Qatar Investment Authority; e a empresa privada saudita de investimentos, Olayan Group.

Ainda mais revelador, é o fato de que a Arábia Saudita entregou à empresa G4S, a mais antiga empresa de segurança de Israel, o trabalho de prover a segurança dos peregrinos que visitam Mecca (o perímetro considerado vai do aeroporto de Dubai aos Emirados e à área de Jeddah). Um braço saudita da companhia já está em operação desde 2010, com meios para recolher informação pessoal não só dos peregrinos, mas também de todos os passageiros que voem por Dubai.

G4S empresa de Israel é responsável pela segurança dos peregrinos em Meca

No que tenha a ver com o planejado “caos no mundo muçulmano”, Israel está operando por procuração, exclusivamente mediante agências de inteligência, enquanto vai preservando o mito de que seria “uma vítima do islamismo”. Quanto a isso, as explicações de Israel Shahak, sobre por que a publicação do plano estratégico de Israel não implica qualquer risco particular para Israel, ainda são relevantes e pertinentes.

Chamando atenção para o fato de que, se houvesse esse risco, só poderia vir do mundo árabe e dos EUA, Shahak lembrou:

O mundo árabe até agora se mostrou incapaz de fazer análise racional detalhada da sociedade israelense-judaica (...) Nessa situação, mesmo os que gritam contra os perigos do expansionismo israelense (que são perigos muito reais) fazem-no não por conhecimento factual e detalhado, mas porque acreditam em mitos (...) Os especialistas israelenses assumem que, no geral, os árabes não darão atenção às discussões israelenses sobre o futuro.

A situação é semelhante nos EUA, onde toda a informação sobre Israel é distribuída pela imprensa-empresa de direita pró-Israel. Isso tudo considerado, Shahak chega à seguinte conclusão:

Por hora, portanto, dada a situação real de que Israel é efetivamente uma sociedade fechada para o resto do mundo, porque o mundo deseja permanecer de olhos fechados, a publicação não terá consequências; e os movimentos iniciais de tal plano já em execução continuam viáveis.





Notas dos tradutores:
[1] Israel Shahak (1933-2001) tornou-se conhecido como crítico das ideias de políticos israelenses sobre não judeus. Foi professor de Química Orgânica na Universidade Hebraica de Jerusalém, presidente da Liga Israelense pelos Direitos Humanos e Direitos Civis e publicou inúmeros estudos, entre os quais The Non-Jew in the Jewish State [Não judeus no estado judeu], Israel’s Global Role: Weapons for Repression [O papel global de Israel: armas para repressão] e Jewish History, Jewish Religion: The Weight of Three Thousand Years [História dos judeus, religião dos judeus: o peso de 3 mil anos].
[2] É o que escreve Livia Rokach, em seu livro Israel’s Sacred Terrorism [O terrorismo sagrado de Israel] (1980), publicado pela mesma Associação. O livro baseia-se nas memórias de Moshe Sharett, o primeiro ministro de Negócios Estrangeiros de Israel e ex-primeiro-ministro; expõe o plano sionista com vistas à Líbia e o processo de seu desenvolvimento em meados dos anos 1950s. A primeira massiva invasão da Líbia, em 1978, contribuiu para o desenvolvimento desse plano até os menores detalhes; e a invasão de junho de 1982 visou a implementar parte do plano, pelo qual a Síria e a Jordânia teriam de ser divididas.




[*] Olga Chetverikova, Strategic Culture
In the Shadow of American Geopolitics, or Once Again on Greater Israel (I)
In the Shadow of American Geopolitics, or Once Again on Greater Israel (II)

Fonte:redecastorphoto
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu